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08/09/2006 10:29

APOMETRIA - UM ARTIFÍCIO DE TÉCNICA


171.- O QUE VEM A SER APOMETRIA?

É um nome criado pelo médico José Lacerda de Azevedo especialmente para designar o processo de separação do conjunto alma-corpo através de contagem numérica voltada para uma dada pessoa. Suas conclusões foram tiradas após observar os experimentos de tal Sr. Luiz Rodrigues, residente no Rio de Janeiro, onde promovia o desdobramento de candidatos a curas várias, com o nome de hipnometria. Um dia, quando de passagem por Porto Alegre, travou contato com o Dr. Lacerda que dirigia um grupo fenomênico de mediunidade no Hospital Espírita local, despertando nele o interesse para uma investi-gação maior. Aplicando em seu agrupamento o processo hipnométrico, afirma ter conseguido que todos se dirigissem ao domínio espiritual permitindo a produção de numerosas atividades voltadas para o bem de espíritos, de enfermos previamente trazidos e dos próprios médiuns. Estas e outras conclusões vieram a público em um livro inicial intitulado “Espírito/Matéria no qual, em certo trecho, relata:

“Assistimos a duas sessões hipnométricas e suspeitamos, já na primeira, de que a técnica deveria consistir no emprego de campos-de-força magnéticos já que, para haver desdobramento, é necessária alguma forma de energia. Na realidade, a contagem deveria projetar uma sucessão de pulsos energéticos sobre o corpo astral ou mental do paciente, desdobrando-o. Foi o que pudemos comprovar, logo de imediato, em uma série de experimentos. Isso nos levou a abandonar a designação “hipnometria”, substituindo-a por “apometria”, que nos pareceu mais exata, por não ter conotações com o conceito de sono.”

Como se vê, toda a apometria está contida no episódio do desdobramento. Daí para frente o que acontece depende da cultura e da capacidade do experimentador, pois, agora, o serviço se refere ao que fazer com o pessoal desdobrado. Em seu livro o Dr. Lacerda diz uma coisa curiosa:

“O maior êxito da apometria está na sua aplicação em médiuns, para contato fácil e objetivo com o mundo espiritual.”

Ora, as atividades com espíritos através de médiuns têm sido, durante penosos e esforçados anos, objeto das sessões mediúnicas espíritas. Não parece correto, pois, que alguém, mesmo com intenções boas, descobrindo um jeito novo de desdobrar médiuns e, dando-lhe um nome pomposo, passe a praticar, não o desdobramento em si, mas as conhecidas sessões espíritas, incluídas agora, dentro do tal nome sem maior cogitação para com a realidade vigente. Onde fica o respeito ético mínimo pelo direito dos outros? Diante disso, não é possível abonar-se o novo processo que surgiu e que passou a chamar-se “apometria”, dado que o desdobramento, em si, não tem força suficiente para abranger todo o conteúdo que ela pretende alcançar. Vejamos uma parte do conteúdo apométrico na citação do próprio Dr. Lacerda:

“Em nossos trabalhos usamos médiuns videntes que podem enxergar no plano astral, quando desdobrados. (Pessoas comuns, sem vidência, nem acreditam que estão desdobradas.) Já os médiuns experimentados podem ver e ouvir espíritos durante o transe de desdobramento e se deslocar no espaço; visitam, então, colônias do astral; realizam eficiente trabalho de resgate de espíritos sofredores, participando de caravanas de socorro organizadas naquela dimensão; comparecem também a domicílios de enfermos encarnados, integrando equipes espirituais de limpeza de lares.

Conforme podemos ver, estamos diante de uma sessão fenomênica da mediunidade segundo as praticadas pelos espíritas há muito tempo. Há cabimento em chamá-la de sessão apométrica? Pode-se argumentar que ocorrem aqui muitos fenômenos interessantes em conseqüência de um procedimento especial de provocação. Supondo que isso seja verdade, será que por causa disso poderemos dar um nome novo ao mesmo trabalho, só por causa dos procedimentos? Não enxergamos nem a lógica nem a conveniência.

Em todo cometimento humano há de verificar-se bem o que as pessoas fazem e o que conse-guem, em confronto com aquilo que pretendiam como objetivo. Em São José do Rio Preto, estado de São Paulo, gastamos um bom tempo analisando as indicações e procedimentos do novel movimento apresentado. Examinamos os livros específico e fomos procurar os praticantes, tivemos participação pessoal em sessões de outros agrupamentos e comparecemos a congressos específicos travando várias discussões com os aficcionados. Mas, o maior mestre foi mesmo a experimentação pessoal que empreendemos por um bom tempo, com pesquisa e estudos persistentes, individualmente e em grupos internos de debates. Pudemos efetuar alguma absorção, que não consideramos o final do saber mas que nos coloca na posse de algum gabarito para tecer comentários.

Talvez ninguém, antes do Dr. Lacerda, tenha trabalhado especialmente com certo tipo de experimentação em sessões mediúnicas, com metodologia científica, observando, concluindo, anotando e, depois, publicando os resultados em livros. Mas, isso não permite que se os possam colocar dentro de uma outra linha de doutrina, já que não foram criadas ou, sequer, descobertas pelo movimento apométrico. Todavia, excluindo a validade da autoria e não falando da moralidade que alguém possa ter de descobrir o que já era conhecido, concordamos que as técnicas empregadas pelo Dr Lacerda revelam a possibilidade para um rendimento superior ao obtido com os processos clássicos na fenomenologia mediúnica, numa atividade utilitária maior para os participantes da sessão: médiuns, dirigentes, pacientes encarnados presentes ou visitados, espíritos enfermos revoltados, vingativos ou malfeitores e para os próprios benfeitores espirituais. Todos hão de gostar muito mais, já pela superior qualificação dos processos postos em prática, já pela execução mais dinâmica e mais variada, já pelo imenso conteúdo de alegria passível de atingir cada experimentador que tenha conseguido.

170.- CABE, ASSIM, NÃO PENSAR NA APOMETRIA COMO UM MOVIMENTO ANTAGÔNICO?

Cabe não pensar e o pessoal espírita nunca o faria. O antagonismo existe mas não foi criado pelos espíritas, apenas percebido por eles nos diferentes contatos havidos. Se os apometras houvessem fundado uma doutrina nova, independente e com bases próprias, muito diferentes do que já existia, cuidando de efetuar-se em seus arraiais, nós não moveríamos um dedo em sua direção e nem tocaríamos no seu no-me a não ser para abençoá-los. Mas, o que fizeram foi vir arregimentar seus adeptos exatamente nas fileiras espíritas em cujo interior constantemente funcionam, atuando como se estivessem libertando os nossos confrades de algo ultrapassado e superado, desmerecendo e desqualificando as sessões que os estudiosos de Allan Kardec praticam, no uso de seu legítimo direito de escolha.

Todo conhecimento novo, mormente se carreia algum poder ao homem, ao entrar em funcionamento e uso costuma ser um pouco distorcido, permitindo excessos e abusos de vários modos. De um lado porque ninguém sabe ainda como dominar bem os procedimentos mais eficientes e, de outro, porque a nossa sempre insatisfeita ânsia de poder gera natural exagero de aplicação impelindo-nos a desacertos vários. Fico pensando se não aconteceu algo parecido com o pessoal da apometria, experimentador de técnicas novas e, aparentemente, engrandecedoras.

Participando de um Congresso de Apometria não pude deixar de perceber uma série de comportamen-tos dos iniciados que são, no mínimo, bem estranhos. Muitos dirigentes de sessões específicas se apre-sentavam tão arrogantes como se estivessem trabalhando com algo que os colocava acima dos humanos. Ao lidar com as supostas pessoas comuns, ostentavam aquele ar afetado de uma conseguida superioridade mal trabalhada. Lembravam o procedimento das crianças quando, em dia de festa, vestem roupas bonitas e são avisadas para não se desarrumarem enquanto esperam. Elas ficam andando e se mostran-do como se fossem benfeitoras do próprio rei e que, portanto, precisam ser respeitadas e admiradas.

No congresso, muitos falavam abertamente sobre suas descobertas e êxitos pessoais, externando uma grandeza de causar inveja nos observadores. Certos apometras não escondiam um desprezo pelo pessoal espírita que ainda usava os procedimentos mediúnicos tradicionais. Alguns grupos mostravam entender que a apometria superou muito o Espiritismo, não devendo ter com ele nenhuma relação, a não ser a de condescendência. Isso não foi falado abertamente as-sim, mas deu bem para ler nas suas manifestações. Vários oradores falavam, até em palestras, sobre a utilidade da contribuição umbandista, dentro de suas sessões apométricas, com uma exibição orgulhosa de tolerância para com os credos afrobrasileiros, exibindo ardilosa inteligência por terem descoberto e usado uma tolerância que os “puristas ortodoxos” espíritas recusam e perdem.

Não se diga que havia em nós uma antecipada disposição para enxergar com algum preconceito, como se transportássemos uma carga de expectativas contrárias. De nenhum modo era assim. Na verdade, nós comparecêramos animadíssimo para aprender e aderir, buscando os mesmos resultados espetaculosos a que eles se referiam. Tanto era assim que estávamos lá com um ônibus particular cheio de médiuns e coordenadores de trabalhos, vindos de longe para estudar e aprender. De certa forma, até que conseguimos o intento. Aquele congresso foi imensamente útil e revelador, permitindo colher enorme contribuição de informações sobre procedimentos e interpretações.

Vale dizer que o próprio Dr. Lacerda, em seu livro “Espírito/Matéria”, faz uma colocação que dá o que pensar:

“É lamentável que os espíritas estejam impedidos de contribuir para o progresso dessas investigações porque bloqueados pelo conceito kardequiano de perispírito. Será necessário que alarguem seus conhecimentos em torno e além desse conceito para que possam começar a compreender as funções de todos os mediadores plásticos que existem entre o espírito puro e o corpo físico.”

Não entendo porque os espíritas estão impedidos. Teriam sido submetidos a uma espécie de proibição de fazer investigações quaisquer que desejem? Quem os teria proibido? Ou seria essa expressão um ardiloso desafio para que se proclamassem livres e se desembestassem a fazer experimentações apométricas? O autor fala que o conceito kardequiano de perispírito é responsável pelo bloqueio na mente de qualquer espírita experimentador. Para sair disso seria preciso que alargassem seus conhecimentos. Não imagino que tenha dito isso por provocação ou por maldade intencional. Agora, o pessoal espírita não gosta de se ver referido como possuidor de conhecimentos que precisam ser alargados. Seriam os apometras possuidores de conhecimentos tão largos que se permitam referir aos espíritas, genericamente, como necessitados? A experiência tem mostrado o contrário sobre os apometras.

De outro lado, na época em que Kardec escreveu, o conceito de perispírito já provocou uma verdadeira revolução, não cabendo outras especificações que seriam, então, prematuras. Além disso, com a palavra “perispírito” ele se referia ao conjunto de quaisquer expressões para além do corpo físico. De modo que o conceito espírita de perispírito não bloqueia qualquer tentativa de detalhamento e especificação de outros corpos sutis que sejam seus componentes. A menos que este conceito tivesse um poder oculto e mágico suficiente para bloquear a mente de quem nele acreditasse. Só de pensar nisso, dói.

Nos tempos atuais, se alguém começa a dizer que existem muitos corpos sutis, mas não dá prova alguma nem, sequer, algum indício válido, então é como se não tivesse dito nada. Seria preciso que, pelos menos, mostrasse qualquer utilidade para conhecimento e uso dos tais vários componentes. Os espíritas até que não duvidam de que possam existir vários corpos sutis para o ser espiritual, assim como não duvidam de que as informações astrológicas possam ter alguma realidade. Só que estas informações não estão fazendo falta nenhuma em nossas atividades e práticas e não enxergamos ainda nenhuma serventia para elas que nos pudesse beneficiar. Podemos, pois, dispensá-las serenamente. Daí não ter cabimento em vir alguém dizer que precisamos alargar nossos horizontes para novos conhecimentos. Seria inteligente que admitisse, até por causa da possibilidade contrária, que já tivéssemos os horizontes um pouco mais alargados, mas seja diferente o nosso conceito de conhecimento.

174.- O MOVIMENTO APOMÉTRICO JÁ ERA ANTAGÔNICO DESDE O INÍCIO?

O tratamento antagônico ostensivo do pessoal veio algum tempo depois, com o crescimento de suas lides, quando o sentido da palavra ficou mais amplo. Através de uso e de interpretação pessoal, os adeptos passaram a interpretar episódios e inventar um mundo de anexos espirituais espetaculosos, englobando tudo dentro do nome acolhedor da apometria, apresentada como uma ciência nova, promotora de maravilhosos resultados para o bem do homem necessitado. Não se cogitou de verificar se os fenômenos já existiam em alguma doutrina, ninguém cuidou de considerar que o Espiritismo já possuía muitos daqueles conteúdos, não necessitando de que viessem a redescobri-los e apresentá-los como novidade. Só porque estivessem fora de uso, até por fal-ta de experimentadores mais competentes para recolocá-los, não significa poder alguém chegar e tomar posse. Acredito que o Dr. Lacerda não imaginou que isso iria acontecer e criar confusão, coisa que exatamente aconteceu.

Houve, assim, uma expansão artificial do conteúdo apométrico, apareceram muitos líderes com pouca formação, desejosos de fazer muita caridade e precisando mostrar serviço, fizeram muita propagando para atrair massa de povo, prometeram soluções rápidas e totais e criando um clima ideal para abrigar curiosos superficiais, aqueles que chegam valorizando o atalho, e aceitando, ingenuamente, o famoso efeito sem causa, com absoluto desprezo pelas leis divinas que preconizam esforço e merecimento para conseguir valores.

Causa espanto ver que alguém, não se dando conta de sua cultura apenas mediana e com rudimentares informações espíritas, se lance a esdrúxulas aventuras de criar escolas novas ou de fazer propaganda para enfraquecer doutrinas conhecidas, já devidamente assentadas. Vêm a campo, com ares de mestres, ensinando para todo o mundo como foi que descobriram a pólvora, posto que rotularam como apométricos diferentes e antigos fenômenos mediúnicos, sem respeito aos estudos de Allan Kardec e sem qualquer cogitação sobre a variada obra espírita de An-dré Luiz, Manoel Philomeno de Miranda e tantos outros.

A comunicação interplanos é um campo altamente propício para atrair curiosos, aventureiros e inventores que, após uma leve observação, já estão prontos fazer experimentações fenomênicas superiores, sempre com uma proposta de procedimento especial, calcada em informação e uso de fenômenos su-postos extraordinários, capazes de promover resultados sensacionais, até para casos considerados incuráveis como epilepsia, esquizofrenia, câncer, aids etc. Depois disso, tiram conclusões discutíveis e saem divulgando com uma espécie de piedosa obrigação de mostrar ao mundo o conceito novo que encontraram e correm para publicar alguns livros e esgotar o assunto. Só que muitos destes livros estão eivados de primários erros gramaticais, não merecendo, sequer, uma leitura séria. Outros são recheados de informações complicadas, sem maior sentido, muito difíceis de serem compreendidas, sem adequadas instruções para as necessárias confirmações e, positivamente, sem utilidade alguma.

Os seguidores da nova apometria fizeram isso, acredito que até sem maldade mas, então, por ingênuo desconhecimento. Denominaram-se apometras, como se o novo título os tornasse mais dignos e mais respeitáveis para impor-se ao movimento espírita nacional que pretendem conser-tar; e declaram, abertamente, que não são espíritas, libertando-se do “empirismo e da vagareza” com que atuam os discípulos de Allan Kardec. Evidentemente o grosso do pessoal apometra nem se dá conta de que aderiu àquela parafernália toda da qual não faz nem mínima idéia. E é essa turma que está abominando o Espiritismo como coisa ultrapassada e querem corrigi-lo. Não entenderam o Allan Kardec porque, dificilmente, o terão lido.

173.- POR QUE SERÁ QUE HOUVE ESTE DESMERECIMENTO DOS APOMETRAS SOBRE OS ESPÍRITAS?

Se alguém perguntasse isso a um deles, seguramente a resposta seria uma negação peremptória de que, absolutamente, ninguém faz isso. Os fatos, entretanto, são implacáveis e o demonstram. Parece que o pessoal apometra não suportou a glória, suposta disponível, de ser diferentemente bom, partindo para o desmerecimento dos experimentadores que assim não trabalhavam, como se estes fossem constituídos apenas por uma velharia atrasada, portadora de idéias anacrônicas e experimentos arcaicos. Só que não tendo um lugar específico para atuar ou não podendo criar um ambiente próprio, vieram aplicar suas teorias exatamente no seio do movimento espírita.

Supondo estar na posse de algo que os outros nunca viram ou, sequer, imaginaram, lidam conosco como se fôssemos de outra crença. Criaram até uma sociedade própria que os denomine, repre-sente e unifique, a Sociedade Brasileira de Apometria. Todas as pessoas são livres para criar e fazer funcionar as sociedades e instituições que bem desejarem, considerando a sagrada liberdade que, na bênção de Deus, impera neste país. O pessoal apometra sempre poderia fazê-lo, naturalmente seguindo as exigências de compor um movimento novo, com um conteúdo original e técnica de funcionamento diferente. Por exemplo, poderiam criar uma sociedade nove para a purificação do urânio ou para o impedimento da devastação amazônica ou para a reposição das espécies animais em desaparecimento. Ninguém os iria abordar a não ser para abençoá-los. Mas, não foi isso que fizeram. Vieram agitar cá dentro do movimento e, mesmo quando saem deles, ainda precisam arregimentar seus fiéis a partir da crença espírita, dado que agem com enorme porcentagem dos seus programas.

A maioria das sessões apométricas funciona em total conexão com o movimento espírita, quando não dentro dos próprios centros ou instituições espíritas, onde penetram com alegada informação de que estão fazendo um trabalho espírita novo e muito melhor. Na simplicidade ingênua dos confrades, são recebidos e apoiados. Agora, passam ao funcionamento oficial inteiramente contido na periferia do movimento espírita, usando os mesmos procedimentos que aprenderam ali, inclusive lendo os mesmos textos doutrinários, aplicando o mesmo atendimento ao povo, as mesmas práticas assistenciais, os mesmos estudos, as mesmas palestras, baseando-se nos autênticos livros espíritas e fazendo a mesma coisa mediúnica que o pessoal espírita, apenas modificada por pequenas variações e o pomposo nome de apometria que pretendem os projete como diferentes e muito melhores.

Poderiam, sim, abordar os centros, sem sua apometria, para dinamizar o movimento local, trabalhando, estudando, auxiliando como fosse possível. Seria essa uma excelente benfeitoria, de utilidade indiscutível mas, não fazem isso. Querem introduzir a apometria, uma atividade mágica que promete “resolver” todas as dificuldades existentes, inclusive curas impossíveis. Não i-maginam que, com isso, estão agredindo a essência da Doutrina Espírita, acredito que até sem perceber e sem o desejar mas, não escapando de uma indignidade moral de nível institucional.

Pois fica permitido, então, desrespeitar-se a doutrina dos outros só porque existe a liberdade para fazê-lo? Não foge isso do fundamento moral em que a própria religiosidade se baseia? Se os apometras quiserem usar o seu direito de escolha para seguir por um outro caminho, podem fazê-lo seguramente mas, antes, precisam compor um movimento próprio, diferente dos que já existem. Não vale plagiar uma que já implantada, mudar um pouquinho, colocar um nome novo e sair fazendo propagando, inclusive denegrindo a imagem daquela. A Doutrina Espírita propriamente dita não fica atingida em nada, mas os confrades, humanos que são, com a incumbência de se defenderem, a si e a seu movimento, ficam aborrecidos.
No centro espírita o pessoal está ocupado com o estudo de Allan Kardec e com as práticas que conseguiu aperfeiçoar, mas dentro de uma codificação que deseja preservar. Não cremos ser necessário defender a pureza doutrinária porque a apometria não tem doutrina própria e nem pretendeu. Não passou de um artifício de técnica, um movimento mal interpretado, talvez por falta de tempo ou de paciência, talvez porque os apometras estavam admirados demais para conseguir observar melhor. Se o tivessem feito teriam descoberto que os fenômenos não eram novos, somente a sua aplicação é que era. Não se justificava, portanto, nem colocar um nome novo. Fugiram disso, eventualmente, por terem ficado muito engalanados com os bons resultados fenomênicos, obtidos em práticas que nunca chegaram a saber que eram as práticas espíritas. Postaram-se como genuínos e originais quando, na verdade, os seus processos não o eram, de modo algum.

171.- O PROCEDIMENTO APOMÉTRICO SE APÓIA SÓ NO DESDOBRAMENTO?

A palavra “apometria” foi criada numa relação direta com o desdobramento da alma. Sua provocação é a chave principal do processo e é proposta para os médiuns logo no começo da sessão. Toda a novidade consiste nisso afinal, a ponto de o empenho maior cair justamente no modo de agir para consegui-lo. Quando ouvimos falar que alguém houvera descoberto um meio de produzi-lo de modo fácil e rápido, evidentemente nos alvoroçamos buscando-o com ansiosa expectativa. Conseguimos o livro do Dr. Lacerda, fizemos o estudo devido e lançamos mãos à obra. Todavia, ao colocar em ação as providências para efetuar o processo, do modo preconizado pela técnica, surgiu um problema embaraçoso e, até mesmo, acabrunhador: o desdobramento não ocorria conforme a teoria geral. O mais marcante axioma da Apometria, aquele de contar, em voz alta, de 1 a 7, colocando pulsos energéticos na voz, focalizando uma determinada pessoa, que ela prontamente se projetava para o astral, independentemente de sua condição de sexo, maturidade e saúde, sem exclusão até dos esquizofrênicos, não funcionava na prática.

Agindo exatamente como indicado, preparamos tudo e procedemos a contagem desejando, torcendo para conseguir. Terminada a contagem, passamos a uma verificação simples, tentando descobrir se alguém se projetara para fora do corpo, podendo testificar sobre a nova realidade, oferecendo informações que apenas nesta condição lhe seria dado obter. Mas, ninguém re-velou nada, ninguém se desdobrara. Talvez algo desconhecido tenha impedido e o pretendido não se dera. Recontamos os tais pulsos sem obter resultado. Tornamos a contar e, de novo, mais de sete, muito mais e, nada... É bem de ver-se que o buscado objetivo do desdobramento é in-dispensável e, assim, concluímos que o processo não acontecia ou, pelo menos, nessa oportunida-de. Naturalmente que não iríamos imaginar um resultado só porque o desejávamos muito. Não se pode colocar fé numa experiência de pesquisa, principalmente aquela boa fé, muito costumeira entre nós, de acreditar sem qualquer verificação. Após muitas tentativas práticas, todas mostrando negativa, muito a contragosto, constatamos que a técnica não funcionava. Voltamos aos livros, outros livros, procurando algo não visto antes, uma exceção talvez, retomamos a prática mas, nada. Este negócio de contar para alguém desdobrar não funciona de jeito nenhum.

Os apometras apregoam, abertamente, que estão dentro de uma fenomenologia grandiosa, inteiramen-te nova, mesmo sendo evidente que a novidade maior, a tônica fundamental de sua técnica, aquela capaz de fazer um divisor entre as sessões apométricas e as que não são, é uma engraçada quimera.

172.- AFINAL, DE QUE SE CONSTITUI A APOMETRIA PROPRIAMENTE DITA ?

Não sei se alguém sabe. Tendo a palavra sido criada para definir um processo que não dá certo não fica nada fácil justificar a sua existência. Eliminado o desdobramento por contagem não sobra nada para compor o encantado procedimento de que tantos se engalanaram tanto. O que se tem a fazer agora é somente um trabalho fenomênico de mediunidade a exigir um trato adequado e competente que, ao efetuar-se, não muda de realidade e não precisa de nome novo.

Dissemos que os experimentos científicos do Dr. Lacerda foram muito bem feitos e podem tra-zer uma contribuição ao processo fenomênico espírita. Considere-se e homenageie-se o rigor científico por ele colocado, pelo método de trabalho excelente que sua cultura lhe permitia empregar, por sua desenvoltura de fala e eficiência na criatividade de soluções. Pode muito bem absorver-se e acrescentar-se ao conhecimento espírita comum, exatamente como se faz nos congressos científicos, como os de medicina, por exemplo, onde os experimentadores expõem técnicas novíssimas que descobriram em seus laboratórios e que passam a enriquecer a medicina especializada. Ninguém reclama ter inventado uma ciência nova.

Por que, então, a técnica apométrica precisaria receber um nome diferente? Era ou não era um proce-dimento proposto para melhorar uma sessão mediúnica espírita? Não há dúvida que sim porque o gros-so de sua operação se efetua sempre com a presença de espíritos desencarnados, comunicando-se e sendo atendidos com as informações que os seus dirigentes possuem. Os resultados dependem exclusivamente de suas luzes pessoais, de sua experiência, de sua competência enfim, como acontece com todos os dirigentes espíritas de sessões fenomênicas. Quando algum possui mais cultura geral ou maior cultura científica, pode conduzir os trabalhos com outra linguagem, com melhor seqüência e aplicar informações até sobre conceitos eletromagnéticos, ideoplásticos etc.

É o que fazem os experimentadores mais eruditos como o Dr. Lacerda, por exemplo, que não inventou, não criou, aqueles fenômenos. Somente os adotou, fez pesquisas próprias e elaborou, por mérito seu, enorme aliás, uma descrição excelente dos processos de operação, coisa que ele seguramente aprendeu na Faculdade de Medicina. Investigou casos, anotou-os, tratou de pesso-as e de espíritos com técnica aprimoradíssima, esta, sim, que ele elaborou e que não tem qualquer relação causal com o mediunismo, entregando para a posteridade uma contribuição maiusculamente importante. Sua apometria não ficou, pois, alicerçada para ser uma ciência avulsa ou uma filosofia ou uma religião. Teria sido muito bom que ele não tivesse proposto nome diferente algum para designar os procedimentos que aplicava. Isso porque todos os processos técnicos usados e descritos no livro são naturais do conhecimento científico e ou do conhecimento espí-rita, conquanto não sejam normais nas práticas fenomênicas dos núcleos doutrinários e grande número delas não tenham, jamais, sido usados por aí, porque eram procedimentos particulares de um cientista, improvisando respostas ao lidar com os eventos que lhe surgiam durante os trabalhos.

Os fenômenos mediúnicos não são de propriedade do Espiritismo, não foram por ele inventados e pertencem ao acervo natural do universo. Entretanto, as técnicas de lida fenomênicas foram estudadas e aperfeiçoadas dentro do movimento espírita mundial, o que nos garante, ao menos dentro de uma ética mínima, o direito de usá-las com nome próprio. Isso precisa ser entendido e não pode ser desrespeitado. Como não existem autoridades hierárquicas em nosso movimento, ficam as células espíritas sujeitas ao ataque aventureiro de investigadores primários que costumam chegar inventando doutrina nova. Cabe aos espíritas conscientes o dever de não aceitar isso e de providenciar o necessário esclarecimento em época própria. Não estamos precisando de pretensos salvadores que outra coisa não trazem senão experimentação comum e muita confusão no meio doutrinário. Cabenos o dever de manifestar-nos para esclarecer os nossos companheiros do centro e, até, os apometras que, em grande maioria nem fazem qualquer idéia sobre as implicações de suas práticas.

175.- ENTRETANTO, PERMANECE O FATO DE QUE A APOMETRIA PROMOVE MUITAS CURAS NAS PESSOAS.

Será que promove mesmo? A conceituação exata da palavra cura precisa ainda de ser mais divulgada. Precisamos conhecer melhor se e quando uma cura foi realmente executada, pesquisando não somente o aparente estado da instrumentação física como, também, a resolução adequada dos fatores causais do distúrbio. A Doutrina Espírita divulga um aspecto da Lei Divina que impressiona pela simplicidade e pela razão. Segundo ele não é factível a obtenção de favores celestes sem os correspondentes méritos justos, ou seja, não se podem colher frutos exce-lentes sem se haver tido o cuidado de plantarem-se sementes apropriadas.

Como o nosso orgulho constantemente nos precipita em ciladas dolorosas, mostrando-nos a necessidade defensiva de mais estudo e mais humildade, inferimos o imperativo de não agir irresponsavelmente em quaisquer concursos naturais, com especial atenção nos processos de ação sobre enfermidades, mesmo que as aparências estejam indicando as feições da caridade. O capítulo da cura de corpos é um dos mais melindrosos que existem e, justamente ele, tem sido o fator de queda para tantos irmãos nossos que, sem perceber, por vezes se arvoram como mais piedosos do que Deus quando, passando por atalhos, se lançam a corrigir o sofrimento humano com uma suposta eficiência em rapidez e amenidade, incidindo em presunção nitidamente vaidosa. Mais não fosse e o tentame já seria muito desagradável, quanto mais que pode ocasionar o despertamento de mirabolantes expectativas no coração dos pacientes, em ângulos os mais diversos, com especial agravo dentro da comunidade espírita. Citemos alguns deles:

- Tentativa na obtenção de curas corporais inauditas, apenas pelo uso de um ou dois médiuns, tidos como excepcionais, sem qualquer cuidado com a prática de virtudes causais e sem nenhum respeito à lei do merecimento de quem se apresente a receber o benefício.

- Anseio de aliviar as aflições, os distúrbios ou os processos obsessivos, chegando-se a resultados maravilhosos, através de mudanças simplórias nas técnicas funcionais e, não, pela decorrência natural conseqüente a penosos esforços no bem ao longo dos anos.

- Esperança de melhorar os trabalhos mediúnicos vigentes no centro, como se o empirismo e as fraquezas naturais de alguns grupos fenomênicos se devessem ao próprio contexto espírita do processo e, não, ao império de uma lei perfeita que mostra ser necessário um árduo trabalho de preparação e crescimento antes de atingir-se o convívio com os valores mais sublimes.

- Pretensão de conseguir-se um acesso fácil ao contato direto e à intimidade dos espíritos maiores, sem o atendimento a requisitos indispensáveis de virtude superior.

Temos assistido a exemplos vários de tentativas nestes diferentes campos, terminando em conceitos estranhos e doutrinariamente discutíveis, mostrados como se fossem um progresso para o nosso mo-vimento e justificados pela inconcebível decisão de auxiliar o Espiritismo a crescer. Ninguém precisa preocupar-se em aperfeiçoar o Espiritismo. Teremos conseguido muito se chegarmos a entender cor-retamente as suas propostas e haveremos operado em muito valor se não comprometermos a simplicidade e a diretriz dos seus conceitos. Quando algum de nós se levantar na abordagem de tais assuntos, não poderá ser acoimado de intolerante, principalmente com certos escritores que estão atrapalhando a marcha benfeitora da Doutrina, fazendo o que bem entendem em nome da liberdade. É preciso não confundir intolerância com o protesto contra a contaminação e o desvirtuamento dos conceitos espíri-tas.

176.- DESCARTE-SE, POIS, DA APOMETRIA SEM PERDA ALGUMA PARA O MUNDO?

Para o pessoal espírita, sem dúvida alguma. Muitos dentre nós ainda não chegaram a uma certeza que tem sido marcante pela insistência com que os manuais doutrinários de vulto a repetem: é a certeza de que ninguém conseguirá colher qualquer benefício sem plantar antes. Isso vale para tudo na vida, inclusive para as curas que as pessoas insistem em procurar através do menor esforço ou pelo atalho. Haja vista a procura imensa que acontece aos pés de algum médium mi-lagreiro quando o povo ouve dizer que ele está curando. Multidões e multidões acorrem numa esperança enorme de receber o que supõe precisar, por causa da bondade divina. O pior de tudo é ver, no meio deles, um grande número de espíritas até bem atuantes. Estão mostrando que não possuem convicção alguma nas informações doutrinárias ou, então, não chegaram mesmo a saber delas.

Quando os apometras publicam nos jornais ou na internet que dispõem de um processo maravilhoso de cura, sem qualquer compromisso ou pagamento por parte dos candidatos e que o colocam, indistintamente, ao alcance de quem compareça, supõem-se grandes caridosos e excelentes benfeitores. Não levam em conta que não podem prometer resultados que, constantemente, não podem entregar dado que estão na dependência de bloqueios expiatórios, podendo, então, espalhar uma descaridosa desilu-são para os irmãos aflitos. Mas, vamos supor que aconteça um caso de cura. Ela somente terá ocorrido em razão de merecimento certo por parte do recebedor, do contrário, estaríamos diante do absurdo do efeito sem causa. Ora, havendo merecimento para a cura, esta chegaria por meio de qualquer processo aplicado, o que anula a necessidade para a criação de movimentos novos, mormente quando espe-taculosos e prometedores de resultados

André Luiz, no livro “Nos Domínios da Mediunidade”, relata o desdobramento obtido no correr de uma sessão fenomênica, evidentemente não apométrica, em que o médium sai do corpo, cons-cientemente. Sentindo-se totalmente fora, encontra-se com espíritos, conversa com eles, vai para outro lugar prestar um serviço, enfim, faz tudo o que o pessoal está dizendo que a apometria criou e introduziu. André Luiz fala em campo de força, em correntes mentais, em construtividade de objetos materiais astrais com a mente, em projeção de campos mentais, em defesa por meio de escudos mentais etc. Não sei o que é que a apometria inventou. Aliás, eu sei. Há uma coisa que os espíritas não tinham descoberto. É essa estória de contar até sete para que as pessoas desdobrem. Isso é novidade. É aquela novidade que não dá certo nas sessões. A gente conta até cansar e ninguém desdobra nada.

A mentalidade espírita apóia completamente todo esforço sincero para encontrar procedimentos novos e eficientes no trato com quaisquer questões ainda não resolvidas, fora e dentro do movimento espíri-ta. Mas, não pode concordar com a suposição de ter-se encontrado uma ciência nova assim que se descobre uma aplicação nova de fenômeno já conhecido. Segundo eu acredito, o Dr. Lacerda nunca esteve pensando em criar uma corrente particular e diferente de atividades fenomênicas espirituais. Muitos dos que leram seu livro e tentaram aplicar é que fizeram isso.

Assim, os processos que ele adotou, no uso dos conhecimentos científicos que possuía, são recursos novos sim mas, como tal, não são privilégio nem propriedade de ninguém em particular, porque pertencem à humanidade toda desde que foram colocados em livros e vendidos ao público. Os recursos não precisam ser desprezados porque deram origem ao que se chamou de apo-metria mas, quanto a esta, depois de muito estudá-la, refletir e testar, em confronto com os ideais e processos espíritas em vigor no centro espírita, cheguei à conclusão de que não tenho nenhuma necessidade e não desejo adotar esta aventura do pensamento, seguramente colocada como movimento paralelo. Meu negócio é a prática espírita, o velho kardecismo mesmo. Fora daí não encontro salvação nenhuma para minha natural maneira de viver. No dia em que aparecer algo melhor do que ele eu mudo. Antes disso, porém, vou precisar conhecer muito melhor a Doutrina, para não cair na infantilidade e na tolice de pensar que alguns conhecimentos de aplicação nova já são capazes de superá-la quando, como no caso presente, já os tínhamos desde sempre. Só que estavam todos escondidos, bem escondidos mesmo, dentro dos livros espíritas. Preciso entender melhor o conceito de lealdade ao fundamento que mais me ajudou e consolou neste mundo.

Todavia, as sessões mediúnicas sob minha orientação tiveram uma grande melhora de métodos, de pro-cedimentos, de técnicas e de rendimentos, graças ao estudo e emprego dos conhecimentos eletromagnéticos. E não é por isso que eu mudei de religião ou, sequer, o nome dos trabalhos. Um tipo de procedimento escolhido não pode ter qualquer ação determinativa na essência de um fenômeno. Assim, as sessões são as mesmas sessões de aplicação mediúnica e de auxílio a espíritos e almas necessitadas, como sempre foi. E tudo vai correndo excelentemente bem, sem nenhuma necessidade de inventar procedimentos esdrúxulos e estapafúrdios que mais servem a inferiores intentos de exibição vaidosa.

Prof. Rodrigues Ferreira
enviada por Espírita.com






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